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Ana Carloina: cantora e compositora. Neta de uma cantora de rádio e sobrinha-neta de instrumentistas.

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Carlos Freitas


A segunda edição do Campari Rock, festival realizado no Hotel Fazenda Hípica, em Atibaia, SP, sábado passado, cumpriu à risca a premissa de alternativo e acertou no alvo: levou 5 mil pessoas a assistirem bandas que não se curvam ao tempo nem às regras de mercado. Com destaque para o Mission of Burma, Ira! e Nação Zumbi. O Supergrass tropeçou na falta de carisma, mas empolgou com os hits de antes.

Poucos testemunharam os sons do cenário independente nacional que abriram a maratona de 10 shows. Montage, Digitaria, Walverdes e Ludovic mostraram serviço com propostas que variaram da eletrônica ao grunge.

Já com uma platéia digna de festival, o Cachorro Grande desfile o seu debochado derivado do rock anglo-saxão. O público reagiu bem ao ponto de cantar junto o hit “Lunático” mesmo sem o som das caixas. A pane rendeu aos gaúchos o melhor momento do festival até aquele instante.

O grupo de boston chegou à Atibaia com expectativa de iniciante. Com nenhum dos seus três álbuns lançados no Brasil, Roger Miller (guitarra), Clint Conley (baixo) e Peter Prescott (bateria) sabiam que mais do que nunca teria de apostar na força do ineditismo. Estavam no lugar no certo. O público adorou reconhecer perversões de Pere Ubu, Sonic Youth, Big Black nas músicas do trio. Não à toa, Bob Weston, baixista do Shellac, banda do legendário Steve Albini, atuou como um quarto integrante manipulando sons por um tape-deck old school. O Mission of Burma fez jus à fama de patrimônio do pós-punk ou da No Wave americana, uma época – final dos anos 70 e início dos anos 80 - que até hoje reverbera nas mentes inquietas dos subterrâneos. Foi uma apresentação enciclopédica.

Com o desafio de encarar um público roqueiro, a Nação Zumbi não teve dúvida, disparou o seu maracatu que pesa uma tonelada. O tiro foi certeiro. O afrofuturismo de baque virado expandiu os horizontes do Campari Rock para além do universo rockeiro. O estrondo de “Hoje, Amanhã e Depois” fez o chão de Atibaia tremer. O som muito bem equalizado colaborou para realçar as sutilezas instrumentais, apesar da poderosa massa grave dos tambores. Assim as músicas do “Futura”, CD recém-lançado pela banda, foram tomando a platéia de assalto. Para trazer o público de volta ao chão, Lúcio e Jorge du Peixe chamaram atenção às manipulações da propaganda política. Na seqüência, a providencial “Propaganda”: “a alma do negócio é você”. Da fase com Chico Science, recuperaram Risoflora e a versão de Maracatu Atômico, de Jorge Mautner. A temperatura do festival alcançou seu nível mais alto e insuperável. Quando a Maré Encher, Blunt of Judah, Maracatu de Tiro Certeiro, Da Lama ao Caos conduziram a platéia à catarse. Disparado, O show do festival.

Foi difícil para o Ira! manter o pique. Mas com alguns clássicos do rock nacional na manga, competência instrumental e uma boa dose de raiva, conseguiram conquistar o público. O apelo rocker fez a versão de Train in Vain do The Clash ficar mais pesada. A balada Girassol ganhou peso e riffs incidentais que colidiram Aquarela do Brasil e Smoke on The Water, do Deep Purple. O experimentalismo pop do Ira! está afiado. Foi o que se viu em Vitrine Viva, quando Edgard Scandurra orquestrou ritmos e ruídos com o plug da guitarra e efeitos wah-wah. O caminho estava aberto para a cover de Foxy Lady, de Jimi Hendrix e para o final apoteótico com Envelheço na Cidade. Antes, Edgard festejou os 25 anos de carreira da banda e aproveitou para vociferar contra os críticos: rock de tiozinho é o c#$%#$#.

Por volta das 1:30h o quarteto Supergrass subiu ao palco do Campari Rock depois de deixar o público encharcando debaixo de um temporal durante cerca de uma hora. Com execução afiada, músicas como “Caught By Fuzz” causaram comoção. Quando a banda decidiu trabalhar as faixas do novo CD “Road To Rouen”, a platéia curvou as pernas. A música que dá nome ao disco, com seus riffs p-funk, causou a falsa impressão de que o Supergrass não estaria disposto a submeter o público à introspecção da maioria das novas canções. Sem a sofistiscação dos arranjos do CD, canções melancólicas como “St. Petersburg” perderam impacto. Intimismo e falta de carisma não combinam. Resignado, O Supergrass voltou ao rock´n´roll e desfilou hits power pop. E o fez com maestria. Com um emaranhado sofisticado de riffs de baixo e guitarra empurrados palco abaixo pelos ataques do batera Danny Goffey, as músicas “Richard III”, “Life on Other Planets”, “Sun Hits the Sky” conduziram a apresentação para um final eletrizante. No embalo do equívoco do Supergrass abrir mão de suas virtudes, naturalmente evolutivas, em troca de uma pretensa maturidade, o pedido “toca Alright” foi inevitável.



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